A vertigem é uma das queixas mais comuns nos consultórios de neurologia e otorrinolaringologia. E entre todas as causas possíveis, a Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB) é a mais frequente. Conhecida popularmente como “cristais soltos no ouvido”, essa condição, apesar de muito incômoda, tem diagnóstico relativamente simples e tratamento eficaz.

Neste artigo, vamos explicar o que é a VPPB, por que ela ocorre, quais são os sintomas, como é feito o diagnóstico e quais as opções de tratamento — tudo com linguagem clara, mas sem perder a base científica.

O que é a VPPB?

A VPPB é uma doença do labirinto de origem mecânica, caracterizada por episódios breves de vertigem desencadeada por movimentos da cabeça. O nome pode parecer complicado, mas ele descreve exatamente o problema:

  • Vertigem: sensação de que tudo está girando;
  • Posicional: provocada por mudanças na posição da cabeça, especialmente ao deitar e virar na cama;
  • Paroxística: ocorre em crises súbitas e intensas, mas que melhoram logo;
  • Benigna: não representa um risco grave à saúde.

Ela acontece quando pequenas partículas de cálcio, chamadas otólitos, que fazem parte do labirinto, e permanecem aderidas no lugar certo, chamado utrículo, se desprendem e migram para o local errado, um dos canais semicirculares, que normalmente contém um líquido, sem nenhum cristal no seu interior.  

Quando a pessoa com VPPB movimenta a cabeça, o cristal (otólito) se movimenta dentro do canal semicircular, onde ele não deveria estar. Neste momento ocorre um estímulo anormal do labirinto, provocado pelo movimento do cristal, e que causa vertigem intensa e de curta duração. Quando o cristal fica volta a ficar parado, a vertigem melhora. Mas quando a pessoa faz um novo movimento começa tudo de novo.

Por que os “cristais” saem do lugar?

Esses “cristais” (os otólitos) são fundamentais para nossa percepção de movimento e posição. No entanto, quando se soltam e caem em um dos canais semicirculares (mais frequentemente no canal posterior), eles passam a interferir nos sinais que o labirinto envia para o cérebro sobre a movimentação da cabeça.

Infelizmente ainda não se conhece o motivo exato que faz esses cristais se soltarem. O que se sabe é que algumas pessoas têm mais predisposição do que outras.

Quem pode ter VPPB?

Qualquer pessoa pode desenvolver VPPB, mas a condição é mais comum em:

  • Idosos, especialmente mulheres acima de 60 anos;
  • Pessoas com histórico recente de traumatismo craniano;
  • Pacientes com outras doenças do labirinto, neurite vestibular ou migrânea vestibular;
  • Indivíduos com osteopenia, osteoporose ou deficiência de vitamina D.

Estudos mostram que cerca de 2,4% da população terá pelo menos um episódio de VPPB na vida, e a taxa de recorrência anual é de aproximadamente 15%.

Quais são os sintomas?

O sintoma clássico é a vertigem rotatória intensa, que dura menos de um minuto e é provocada por movimentos específicos da cabeça, como:

  • Deitar-se ou levantar-se da cama;
  • Virar de lado na cama;
  • Inclinar a cabeça para trás ou para baixo (ex: olhar para o alto ou amarrar os sapatos).

A vertigem geralmente vem acompanhada de náuseas, às vezes vômitos, e pode causar grande desconforto. Em idosos, pode haver maior instabilidade e risco de quedas, mesmo que a vertigem não seja sempre rotatória ou intensa.

É comum os pacientes relatarem que a vertigem aparece apenas quando se mexem, e não quando estão com a cabeça parada. Essa distinção é importante para diferenciar a VPPB de outras causas de tontura.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico, baseado na história e na observação do nistagmo (movimentos involuntários dos olhos) durante manobras posicionais. A manobra mais utilizada no diagnóstico é a de Dix-Hallpike. O paciente é deitado rapidamente com a cabeça virada para um lado e inclinada para trás. Um nistagmo com componente vertical para cima e torcional é considerado típico.

Características do nistagmo típico da VPPB posterior:

  1. Direção específica: vertical para cima e torcional para o lado afetado:
  2. Latência: o nistagmo surge alguns segundos após o movimento;
  3. Curta duração: geralmente < 30–60 segundos;
  4. Fatigabilidade: fica mais fraco com repetições do teste;
  5. Inversão na direção: ao voltar à posição sentada o nistagmo bate na direção oposta a que bateu ao deitar
  6. Ausência de sinais neurológicos associados.

O nistagmo geralmente é visível com o exame clínico, especialmente com uso de lentes de Frenzel. O diagnóstico é clínico e não são necessários exames complementares.

VPPB é perigosa?

Apesar de ser considerada uma condição benigna, a VPPB compromete muito a qualidade de vida e aumenta o risco de quedas, principalmente em idosos. Muitos pacientes sofrem durante meses ou anos sem diagnóstico correto, o que leva a uso inadequado de medicamentos e exames desnecessários.

Como é o tratamento?

O tratamento mais eficaz são as manobras de reposicionamento, que visam levar os otólitos de volta ao utrículo, seu local correto. As mais utilizadas são a manobra de Epley e a manobra de Semont.

Também usada para o canal posterior. É mais rápida, mas requer movimentos mais bruscos, o que pode gerar desconforto.

Em cerca de 80% dos casos, uma única sessão da manobra já é suficiente para resolver os sintomas.

O que esperar após o tratamento?

Mesmo após a manobra, é comum sentir tontura leve residual por alguns dias. Além disso, recorrências podem acontecer, especialmente em idosos, em pessoas com osteoporose e em pacientes com enxaqueca.

Não é necessário fazer repouso prolongado após o tratamento. Em geral, recomenda-se manter as atividades normais, com exceção de algumas atividades físicas, pois deve-se evitar movimentos bruscos da cabeça.

Quando investigar mais?

Apesar de ser a causa mais comum de vertigem, nem toda tontura posicional é VPPB. O médico deve considerar outros diagnósticos quando:

  • Os sintomas não se encaixam nas características clássicas;
  • O nistagmo tem padrão atípico (ex: vertical puro);
  • O paciente não melhora após manobras repetidas.

Nesses casos, podem ser necessários exames adicionais, especialmente para descartar causas centrais (neurológicas).

Conclusão

A VPPB é uma condição comum, benigna e tratável — mas que ainda é subdiagnosticada. Conhecer seus sintomas, saber como ela se manifesta e buscar um profissional capacitado para fazer o diagnóstico e tratamento corretos pode mudar completamente a vida do paciente.

Se você ou alguém próximo sente vertigens ao deitar, levantar ou virar a cabeça, procure um médico com experiência em tontura e vertigem. Muitas vezes, um simples reposicionamento é o que falta para o mundo parar de girar.

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