A vertigem é um sintoma comum, mas frequentemente mal compreendido, tanto por pacientes quanto por profissionais de saúde. Para quem vivencia tontura ou vertigem, trata-se de uma sensação concreta e muitas vezes incapacitante, que pode interferir nas atividades cotidianas, no bem-estar e na autonomia. Para a maioria dos médicos, representa um desafio diagnóstico que exige escuta atenta, raciocínio clínico e, muitas vezes, investigação especializada.
Este texto tem como objetivo apresentar, de forma clara e baseada em evidências, as principais informações sobre a vertigem: sua prevalência, suas causas mais comuns e os sinais de alerta que indicam a necessidade de avaliação médica.
Prevalência da Vertigem na População
A vertigem é um sintoma extremamente frequente. Estudos populacionais indicam que entre 15% e 30% das pessoas terão ao menos um episódio de tontura ou vertigem ao longo da vida. Quando se considera o conjunto das doenças vestibulares propriamente ditas, estima-se que 7,4% da população geral tenha pelo menos um episódio na vida.
A prevalência é maior entre mulheres e aumenta progressivamente com a idade. Entre os idosos, cerca de 30% referem tontura, vertigem ou desequilíbrio, o que representa não apenas uma queixa clínica relevante, mas um importante fator de risco para quedas, hospitalizações e redução da mobilidade.
Apesar da frequência, a vertigem é muitas vezes subvalorizada ou rotulada de maneira genérica como “labirintite”, termo que, embora popular, é impreciso e raramente corresponde ao diagnóstico real.
Vertigem em Ambulatórios e Serviços Especializados
Em ambulatórios gerais de atenção primária, a tontura representa de 1% a 3% dos atendimentos. Já nos serviços de emergência, esse número pode chegar a 5%. Nessas situações, os diagnósticos mais comuns são:
- Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB)
- Migrânea vestibular
- Síndrome vestibular aguda periférica ou central
- Tontura crônica
Nos ambulatórios especializados em equilíbrio e distúrbios vestibulares, observa-se uma distribuição mais específica e refinada dos diagnósticos. Dados de centros de referência mostram que os principais diagnósticos incluem:
- VPPB: 17% a 25% dos casos
- Migrânea vestibular: 10% a 21%
- Doença de Menière: 6% a 11%
- Vestibulopatia unilateral aguda (neurite vestibular): 3% a 10%
- Vertigem por causas neurológicas: 12%
- Tontura crônica: 15% a 20%
Principais Diagnósticos Diferenciais
1. Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB)
A VPPB é, de longe, a causa mais comum de vertigem, podendo ocorrer em até 3,4% das pessoas acima de 60 anos e em 10% daqueles acima de 80 anos. Resulta do deslocamento de otólitos (pequenos cristais de carbonato de cálcio) para dentro dos canais semicirculares do ouvido interno. Esse fenômeno interfere na percepção normal de movimento e provoca episódios de vertigem de curta duração, geralmente desencadeados por mudanças na posição da cabeça.
- Os episódios duram segundos a minutos.
- A vertigem é tipicamente desencadeada ao virar na cama, olhar para cima ou abaixar a cabeça.
- O tratamento é feito com manobras de reposicionamento, com excelente resposta na maioria dos casos.
2. Migrânea Vestibular (Enxaqueca Vestibular)
A migrânea vestibular é uma das causas mais prevalentes de vertigem recorrente, especialmente em mulheres jovens e de meia-idade. Os estudos mostram uma prevalência que varia de 1 a 2,7% nos adultos, e em ambulatórios especializados pode corresponder de 10% a 21% dos casos.
Caracteriza-se por episódios de vertigem espontânea ou desencadeada, com duração variável, que ocorrem em pessoas com história atual ou prévia de enxaqueca. Como o sintoma de vertigem podem ou não estar acompanhado de dor de cabeça, o diagnóstico pode se tornar menos óbvio. Outros sintomas que podem vir associados a vertigem são fotofobia, fonofobia e auras visuais. É frequentemente subdiagnosticada ou confundida com outras causas, como ansiedade ou VPPB atípica.
E assim como outras formas de migrânea há tratamento tanto para cada uma das crises, como para prevenir a ocorrência dos sintomas.
3. Doença de Menière
Trata-se de uma desordem crônica do ouvido interno caracterizada por:
- Episódios espontâneos de vertigem com duração de 20 minutos a várias horas
- Flutuação auditiva (perda auditiva progressiva)
- Zumbido
- Sensação de pressão no ouvido
É uma doença mais rara na população geral, com prevalência em torno de 0,5%, mas em centros especializados varia entre 6% e 11% dos casos atendidos. O diagnóstico é clínico, baseado em critérios bem estabelecidos. Há múltiplas estratégias terapêuticas que visam controlar os sintomas.
4. Vertigem por causas neurológicas
As causas mais comuns de vertigem são doenças do labirinto, mas é importante lembrar que vertigem também pode ser decorrente de doenças neurológicas como AVC, tumor, esclerose múltipla e doenças degenerativas. Estas causa, todas somadas correspondem aproximadamente a 10% a 12% de todos os casos atendidos em ambulatórios especializados.
5. Tontura crônica
A tontura crônica é definida como aquela que persiste por semanas a meses, podendo ser diária ou quase diária. Afeta significativamente a qualidade de vida, comprometendo a mobilidade, o equilíbrio emocional e a independência. Entre as principais causas de tontura crônica, destacam-se a TPPP (Tontura Perceptual Persistente Posicional), a perda da função vestibular uni ou bilateral e as doenças neurológicas.
A TPPP caracteriza-se por sensação contínua de desequilíbrio, flutuação ou instabilidade, geralmente pior em ambientes visuais complexos (shoppings, ruas movimentadas, telas). É definida como tendo origem funcional, ou seja o funcionamento do sistema vestibular está comprometido, sem que haja um dano estrutural evidente. É comum após episódios de vertigem aguda, crises de enxaqueca ou estresse, e está associada a hipervigilância corporal e ansiedade. Há melhora quando tratada de maneira adequada com reabilitação vestibular, psicoterapia e, em alguns casos, medicação.
Vertigem no Envelhecimento
No processo de envelhecimento, há um declínio fisiológico progressivo dos sistemas responsáveis pela manutenção do equilíbrio: visão, propriocepção, função muscular e sistema vestibular. Em consequência, as queixas de vertigem, tontura e desequilíbrio no idoso tendem a ser multifatorial, exigindo avaliação cuidadosa. Até 30% dos idosos relatam tontura ou vertigem, e estas queixas são relacionadas a impacto na qualidade de vida desta população.
As causas mais comuns de vertigem em idosos incluem:
- VPPB
- Hipofunção vestibular (unilateral ou bilateral)
- Polineuropatias periféricas
- Interações medicamentosas
- Comprometimento cognitivo e doenças neurodegenerativas
Além disso, o medo de cair, muito presente nesse grupo etário, pode agravar os sintomas e levar à restrição de atividades e isolamento social.
Impacto Clínico e Social da Vertigem
A vertigem crônica está associada a redução da qualidade de vida, prejuízos no desempenho profissional, social e familiar, além de aumento na prevalência de transtornos de ansiedade e depressão. Em idosos, representa importante fator de risco para quedas e institucionalização.
Apesar disso, estudos mostram que a vertigem é frequentemente mal diagnosticada na atenção primária, e muitos pacientes passam anos sem receber orientação adequada. A busca por avaliação especializada pode fazer diferença significativa no prognóstico e no bem-estar.
Quando Procurar Avaliação Médica Especializada
Embora a vertigem seja comum, ela não deve ser negligenciada. Recomenda-se buscar avaliação médica se houver qualquer impacto no bem-estar, no trabalho ou na vida social.
Conclusão
A vertigem é um sintoma frequente, multifatorial e que pode impactar significativamente a vida de quem a apresenta. Sua correta investigação exige uma abordagem clínica criteriosa e individualizada.
Compreender as principais causas e reconhecer os sinais de alerta permite ao paciente tomar decisões mais informadas, buscar o atendimento adequado e, na maioria dos casos, encontrar tratamento eficaz.
Vertigem não é um destino inevitável. Na maioria dos casos, é um sinal que pode ser compreendido, diagnosticado e tratado com sucesso.